terça-feira, 20 de outubro de 2009

Perdão

Eu precisava fazer algo. Decidi mudar de casa. Logo que pensei nessa possibilidade, desisti. Não conseguia deixar aquele lugar.

As paredes. O chão. O espaço onde procurei liberdade, e encontrei muitas vezes um labirinto. Chorei para afugentar a raiva.

Vasculhei toda a casa. Procurei com as mãos o passado. Ali vivi com ela. Ali a vi com ele. Nossa filha dormindo no quarto ao lado.

Ela achou melhor se mudar. Foi. Levou a criança. Fiquei com casa e a frase: “A culpa é sua”. Mas o fim é do homem.

Sentei na beirada da cama. Descalcei os chinelos. O frio do chão. A umidade da casa. Me escondi nos lençóis. Senti a aspereza do mundo.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

As cidades

Depois de meses procurando um apartamento, Rafael ficou feliz ao poder entrar em um espaço seu. Só seu. Um canto onde possa fazer o que bem entender, não que seja um rebelde, mas sempre se sentiu um estranho na família, na escola, no trabalho. Fechou a porta e deitou no chão. Acordou assustado, suando, no escuro, “que horas eram?”. Percorreu todos os cômodos, ainda vazios, até chegar à cozinha. Não sabia o que procurava, então decidiu que queria nunca mais sair dali. E num movimento lento e teatral, abriu o zíper colocou seu pênis para fora e mijou na pia. Tomou aquilo como um ato libertador.

...

A caixa possui medidas exatas. Tem seis metros de altura, por cinco de largura e oito de comprimento. Completamente preta, não possui nenhuma inscrição, o que intrigava a todos. Porém, o que causava mais estranheza era o motivo dela estar ali. “Quem a havia deixado para trás?” Tentam abrir. Mas como? Perfurar, serrar, explodir. O tempo passa. E se até um determinado momento a curiosidade de todos aumentava, aos poucos a caixa começou a ser esquecida, com os seguidos fracassos na tentativa de descobrir o seu conteúdo.

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A idade já começa a mostrar suas caras. Seja no jeito, mais amargo de ver a vida, seja no corpo, marcado por rugas. Passou a rejeitar o contato com as pessoas. Só sai de casa para ter certeza de que o mundo ainda está lá fora. Apesar de não acreditar Nele, dá graças a Deus por teus filhos a terem deixado, largada ali. Suas roupas, tão velhas como ela, já são trapos. Não quer mais saber de banhos. Os dentes podres, nas pernas já surgem algumas feridas. Sua aparência não é mais motivo de preocupações. A vida dando adeus. Tem seus livros, seus discos, suas lembranças, o que lhe basta. Hábitos antigos preserva, como folhear álbuns de fotografias, passando longas horas em cada foto. Nas imagens vê o passado, e tudo que o cercava. O casamento infeliz lhe traz a imagem dos pais. Uma história a se repetir. Os filhos, três, Maria, Antônio, João, todos, sorrindo, para em seguida partirem. Além das fotos, gosta do silêncio. Encostada em sua poltrona, repousa o corpo esperando o momento em que nenhum barulho do mundo chegue aos seus ouvidos.

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“Os traços característicos do ‘modo de vida’ urbano têm sido descritos sociologicamente como consistindo na substituição de contatos primários por secundários, no enfraquecimento dos laços de parentesco e no declínio do significado social da família, no desaparecimento da vizinhança e na corrosão da base tradicional da solidariedade social.” (Louis Wirth)

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Um morto vivo. Uma pedra no sapato. O problema, ainda sem solução, na vida de Joana. O fardo que ela já não agüenta mais carregar. Perdida está deste o acidente com seu marido. Ex-marido, pois aquele ali na cadeira de roda já não tem mais nada de Fernando. Nem o olhar lhe restou. De sua boca, nunca mais ouvirá “eu te amo”, apenas gemidos. Não tinham nem um ano de casados quando aconteceu. O fim chegou, a passos largos. “Por que ele não morreu?” Maria teme que fique ali para sempre, trocando fraldas e dando papinha na boca de Fernando. Sua vida agora é essa. Já pensou em ter um novo amor, mas não consegue. Já pensou em se matar, mas não consegue. Está presa. Algemada.

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A caixa guarda um segredo. Traz dentro de si uma cidade.
Foi o engenheiro que construiu a caixa. O arquiteto a projetou. Uma encomenda do poeta. A partir do sonho do escritor. Já a cidade não, essa sempre existiu. Essa foi criada por nós.

domingo, 17 de maio de 2009

Todo fim é o recomeço de outro fim

Ela fechou a porta. Motivos para ir, tinha. Motivos para ficar, também. Uma escolha. Partiu. Paulo não moveu um músculo. O silêncio da casa não o incomodou. O silêncio não era novidade naquele lugar. O silêncio já era parte do apartamento. Parece que Paulo previa a despedida. Cético do jeito que é, nunca acreditou em amor eterno. Nada é para sempre, dizia sempre. Agora, já não sabe se repetiria a frase ao lhe perguntarem por que terminaram. Talvez mandasse a pessoa tomar no cú, afinal essa é a pergunta mais ordinária a se fazer nesses momentos. Porém, mesmo sem Paulo mover um músculo, algo estranho ele sentiu, algo que guardou para si. Nem mesmo a barata que passou por entre seus dedos e o teclado do computador pôde ver alguma mudança em Paulo. Talvez o único estranhamento que aquele inseto teve foi a falta de reação diante de sua presença. Mas foram só alguns segundos. Logo ele voltou ao que estava fazendo. E ainda deu tempo para ver a barata atravessando a sala. Pensou em matar, porém seus instintos de predador logo foram substituídos pela vontade de ir até o quarto, abrir a mochila, pegar o resto de cocaína que ainda tinha. E cheirar... agradeceu por ter só um pouco, pois tinha que terminar aquela tradução até o fim da tarde. Voltou o vídeo. Pausa. Traduz. Play. A cabeça vai... Quatro porcos, em círculo, um de costas para o outro. Para se aquecer do frio, os porcos costumam enviar o focinho no rabo do porco que está a sua frente. Viu isso na TV a cabo. Animal Planet, Discovery, sei lá. A imagem é a mesma agora no seu monitor. Duas mulheres e um cara. Eles se chupam. A língua dele lambe o cú da loira que lambe a boceta peluda de uma ruiva, que por sua vez chupa os vinte e poucos centímetros de pau. “Que pau imenso”, pensa. E a imagem dos porcos com a do filme pornô fazem seu pênis ficar ereto. Um cuspe na mão e uma pausa no trabalho. Lívia é que vem a sua cabeça enquanto se masturba.

Na noite de ontem, foram ao aniversário de uma amiga de Lívia. Som alto, todos conversam, ninguém ouve ninguém. Gente chata, para Paulo. Mas Lívia está acostumada. São seus amigos. Depois de meia hora, Paulo pede para ir ao banheiro e de lá não volta. Essa não foi a primeira vez que a deixou para trás. Na maioria das vezes corre para um bar, o mais vagabundo que aparecesse. Sozinho, toma uma ou duas garrafas de cerveja, e volta para o apartamento, ainda vazio. Quando Lívia chega, ele já está dormindo. Não gosta dessas atitudes, mas nunca fala nada. Guarda para si. Só que ontem Lívia conheceu João Marcelo. Uma boa conversa, corpos quentes e a promessa de se encontrarem outro dia. Muitos amigos de Lívia ainda acham até hoje que esse foi o motivo dela arrumar as malas. Não. O amor por Paulo não tinha acabado. Também não era uma nova paixão nascendo. Até porque no caminho para casa, ela já não gostava de João Marcelo. Um tipo antipático, metido à intelectual, daqueles que acham o sexo um porre. “Tô fora”, gritou Lívia bem alto. Alto o suficiente para ela mesma ouvir. E se no caminho até o apartamento ela deixou João Marcelo para trás em seus pensamentos, o mesmo não fez com Paulo. Listou mentalmente os momentos que viveram juntos. Alegria, brigas, noites e dias, filmes e músicas. Talvez tenha sido nesse momento que ela pensou na possibilidade de ir embora. Talvez esse seja o motivo da lágrima que ela viu escorrer do seu rosto pelo retrovisor. Acelerou, queria chegar logo em casa. Lá se sentia mais protegida. Foi direto até o quarto e viu Paulo dormindo. Quis adivinhar seus sonhos. Pensou no circo que ele sempre comentava. Uma recordação antiga, que ele fazia questão de guardar, um beijo da equilibrista, uma risada com o palhaço, o medo do leão e a admiração que tinha do mágico. Pensou também, nos filmes pornôs para os quais ele faz tradução, cenas das mais leves, tipo Emanuelle, até as mais escatológicas, com animais, gente comendo merda e consolos com facas super afiadas na ponta. Pensou na solidão daquele homem, que era um menino, de poucos amigos, poucas palavras, poucos gestos, poucas ações, de tantos poucos que aos poucos tudo era Paulo. E ela sabia que esse homem a amava muito, como nunca foi amada. Deve ter sido nesse momento que ela teve certeza de que era hora de ir. Uns procuram a felicidade, alguns pensam que a encontraram, outros continuam buscando.

sábado, 11 de abril de 2009

Quando ela pisou na areia

Quando Renata pisou na areia, meu corpo se desfez. Sua beleza turquesa de amêndoa pérola. Monumento ímpar. Desejo reprimido em meus gestos gastos, frios. Deixo tudo para ter Renata. Mulher de Deus. Sábia é a mão que lhe acaricia. Abaixo a tirania, ordena ímpeto seus ombros seguros. Já frágil, seu colo é um espaço aberto para um navegante.

Deitada ao meu lado, finjo me enganar. Enganar quem? Puxa o tecido, solto, que agora já lhe envolve o corpo. E minhas mãos, paradas, já não sabem se vão. Meus olhos se foram. Procuro a bússola, quando sinto que me perdi. Conversando, ela diz: Gosto de Caetano! Gosto mais é de cada silaba que sobrevoa a boca de Renata e que se vai em direção ao mar. Separadas. Juntas. Únicas.

Faço o contorno do corpo. Miro agora o pé. Calcanhares silenciosos, que à noite, carregam Renata nua até meu quarto. Deitamos. O toque proibido imposto por nós. Esquecemos de tudo. O sono chega. Peço perdão, por escrever versos de madrugada e te acordar. São só versos, seus versos.

Rio de Janeiro. Cidade escolhida por nós. Bela, moldura velha. Pintura moderna. Cores e sons. Na praia ensolarada, mar verde, céu azul. E as ondas caem. Renata levanta e sai, cabelos molhadas, levanta o mar. Vejo a cabeça erguida. Em meio ao mar. Olho o sorriso. Vejo, penso e logo quero Renata.

E o mar carrega e traz de volta o sonho. Ficar ao lado de Renata. Observar. Respirar. Perder o tempo. É assim. Estava sozinha. Triste em seu canto. Convidei-a para uma bebida. Dois. Três. Amantes. Eu apaixonado. Ela pela vida. Saímos pelo caminho sem saber o próximo passo. E já na praia, lembro dos fatos, guardados naquele fim de semana.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

E o paraíso

Três minutos. Últimos preparativos. A platéia ávida. Esperando o momento que Lady Gezebel suba ao palco. E dance, mas mais do que dance, tire sua roupa. Mostre seu corpo. Que longe de perfeito, exibe pequenos peitos, embora durinhos, assim como sua bunda. Mas e daí. Contando que mostre sua buceta. Ah, que buceta! Apertadinha. Com uma penugem bem ralinha, curtinha e na qual, com certeza, deve passar água oxigenada. Só assim para ficar... assim.

Dois minutos. E essa porra de sapato com tantos fios para amarrar. Por que não usar nada mais fácil, ou entrar nua de uma vez? Mas não, me querem nessas fantasias, para no fim gozarem de prazer ao verem o que tenho por debaixo da roupa. Querem meu corpo! Todos, homens comuns com desejos comuns.

Um minuto. Eva, Eva. Já! Vamos logo Eva, caralho! Já está na hora, estão te esperando. Tô indo, porra. O quê? É isso mesmo. Só não te meto a mão porque você já vai subir no palco. O Cú. Você não me mete a mão porque sou a grande atração desse seu showzinho. Cadela! Como a tua mãe. Vagabunda! Como tua ex-esposa, que te deixou para ficar com uma striper... sua,ainda por cima. Tá,vai lá e não enche.

Já fazem quase três meses que decidi seguir esse oficio. Minha missão é ser striper. Provocar a tentação. Mostrar aos homens que são apenas homens. Deus me fez esse pedido. Um pedido santo. Em troca O terei. Uma troca. Dou a nudez do meu corpo e recebo um lugar ao Seu lado no Paraíso. Um lugar que já foi meu.

O pedido foi feito em Sua casa. Numa igreja, durante a reza aos pés do altar, vi que o Padre me olhava com desejo... A cada reza eu ia com uma roupa mais ousada. Percebendo que eu já havia notado seus olhares, se aproximou. Em meus ouvidos disse que deixaria sua santa profissão para me enrabar. Não, não fiquei assustada. Compreendi tudo naquele momento.

Enquanto me fode, Paulo, o padre, diz que estou no caminho iluminado. Enquanto me come, fala que devo me orgulhar pelo Senhor ter me escolhido. Após o fim do coito, para finalizar o ato, Paulo nos lava com água benta. Limpa posso ir fazer o meu striper. Estou no caminho de Deus. Meu Senhor. Amém.

terça-feira, 3 de março de 2009

Amblose

Espera angustiante. Sala fria. Se ele soubesse o que está por vir, talvez também sentisse frio. Mas não, no momento está bem aquecido, protegido, dentro de seu casulo. Penso nele a todo momento. Em alguns momentos, parece que penso com ele. Cristina sente medo. Um pouco de medo às vezes é bom para distrair. A dor da separação é a maior. Os quase quatro meses juntos, me fez repensar muita coisa. Deixei de acreditar em muitas coisas. Meu mundo é outro. Sei que preciso ir em frente.

De repente, Cristina muda de opinião, e se sente a pessoa mais estúpida do mundo. Pensa em desistir, contar tudo para os pais, sair de casa e tentar a vida sozinha. Mas me falta coragem. Pobre Cristina, chora para si a espera do chamado. Quero acabar logo com isso e ir para casa. Espera angustiante. Domingos não sabe. Disse que prefere não saber o que farei. “Resolve isso sozinha. Não te amo, e você sabe disso. Faz o que achar melhor, mas não me procure mais.” Cristina, ficou calada. Sua decisão já havia sido tomada antes da conversa.

Conseguiu o telefone da clínica pelo Google, as páginas amarelas dos novos tempos. Teve medo desde o primeiro contato. E a espera até aquele dia foi acompanhada de visões. Andando por São Paulo, vi mães brincando com seus bebes, outra trocavam a fralda daquelas pequenas criaturas, porém a visão mais aterrorizadora foi a de uma mãe que amamentava seu filho. Tinha medo de tudo que envolvia essa relação maternal. Quando via mães e filhos juntos, atravessava a rua, mudava de vagão no metro, saia de lojas. Até fugitiva de mim, eu fui. “Cristina Rezende. Por favor, por aqui.” O momento chegou. Cristina caminha lentamente. Parece mais tranqüila. A espera angustiante terminou.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Termina tudo igual, igual

As luzes piscam. O som alto. Só a vejo quando já está bem próxima de mim. Ela diz algo que não compreendo e vai embora. Tento seguir, mas as pessoas a minha volta não permitem. Perco-a. Tento buscar na memória aquela mulher. Não acho.

Volto para o bar e peço mais uma cerveja. Esqueço do show e fico a observar as pessoas. Todos alegres, cantando junto com a banda. Uns pulam. Outros ensaiam uma dança. Quem era aquela mulher? Sinto alguém a me observar. Viro caça. Julia me olha de um jeito estranho. Não é raiva. Não é tristeza. É um olhar que apenas as mulheres possuem. Ela se aproxima e solta um sorriso. Me beija, me abraça. Diz que gosta de mim. “Tenho medo de te perder”, me revela. Eu quieto, penso nessa garota que revirou a minha vida. Deu emprego, casa, abrigo. Amor, até demais. Vejo que seus 18 anos carregam mais vida do que os meus 40.

Um gole, para esquecer. Abraço-a forte. Ela sorri de novo, mas agora vejo um sorriso real. Julia diz que está amando o show. Eu também. “Viu, eu disse que o Amarante finalmente fez algo bom”, me provoca. Sabe que gosto de Los Hermanos. Digo que ela tem razão. E vamos para mais perto do palco. E cantamos:

I'll keep holding on to you

see no use perfecting lives with strangers
if only you, if only now

Conheci Little Joy com Julia. Logo na primeira noite que nos conhecemos. Foi com esse pretexto que ela me convidou para entrar... na sua vida. “Vem ouvir. Você vai gostar. Bom, eu gosto.” A expectativa era grande, afinal tinha Amarante e Fabrizio Moretti, o baterista do Strokes. Não gostei. “Tudo bem, agora você já está aqui dentro e daqui não sai mais”, ela falava sem pudor.

No dia seguinte, junto às minhas chaves encontrei o ipod dela com um bilhete: “Fui para o ateliê. Desculpa, mas não queria te acordar. Fique com meu ipod. Quero que ouça de novo Little Joy. Beijo.” Até chegar em casa já estava viciado por aquele som ensolarado. E a forma como encaixavam as letras com as melodias, gostava daquela essência. A mesma essência que encontro hoje.

Volto meu pensamento para o show e olho para Julia, mas vejo a mesma mulher de minutos atrás. Fico confuso. Ela me olha. Julia me olha. Julia corre. Eu corro. Mais uma vez, fico preso. Quando alcanço, toco-lhe os ombros, sinto-a tremer. Sinto que está chorando. Me pede para arrumar um lugar para ficar essa noite. Ainda ouço:

Something changes when she glances

Enough to teach you what romance is
With the right step they try their chances
Somewhere else

“O que é a realidade? Está no que vemos, no que pensamos, no que acreditamos!?!? Quem criou a realidade? E os sonhos onde entram nisso? No que devemos acreditar? Há dois mundos: um nosso, aberto ao acaso; outro criado para nós, imutável.” Confuso. Escrevo na minha moleskine, presente de Julia. Me busco nas palavras, enquanto ouço Albert Hammond Jr., no ipod, em um ponto de ônibus às quatro da manhã. Em In Transit, coloco o volume no máximo.

By the way she looked I should've calmed down

I went too far
Oh thats all I got to say

Um achado. Depois de três anos, resolvi baixar o disquinho do guitarrista do Strokes. Penso em Julia. Dessa vez fui eu que apresentei. Ela não gosta de Strokes. Mas gostou de Yours To Keep. Fico pensando nos últimos meses. Nesses meus dias com Julia. Depois de tanta tormenta, estava começando a construir algo. Mas o tempo... o tempo a tudo destrói.

Ligo de um orelhão para Julia. Ela atende, pede perdão. Diz para eu voltar. Pego um táxi. Desço, caminho a passos lentos. Toco o interfone. Ninguém atende. Fico preocupado. Volto a tocar. Nada. Grito seu nome. O porteiro pergunta o que estou fazendo. Ele não me reconhece. Peço para abrir, ela me manda ir embora. Fico parado, não sei por quando tempo. Atravesso a rua. Sento no meio fio, esperando. Olho para frente do prédio. Agora vejo a mesma mulher do show e vejo Julia e vejo o carro e vejo o corpo no ar até tocar o chão. Corro.

Everytime
Everytime
Everytime


É o despertador com Nickel Eye. Olho para o lado. Julia dorme feliz.

sábado, 24 de janeiro de 2009

a menina

Foi na casinha velha, onde a vi pela primeira vez. Sua mãe, após longo luto pelo marido, veio visitar meus pais. Com seus doze anos, ela não parecia tão triste pela perda. Seus olhos traziam um pouco de ódio. Lembro que, a princípio, tive medo daquela menina. Ao mesmo tempo, embora jovem, eu sabia que queria passar o resto da vida com ela. Depois daquele dia, nos encontramos mais algumas vezes. Ela sempre sorria para mim e eu devolvia o aceno. Logo, fiquei sabendo que sua mãe iria se mudar para São Paulo. Ia morar com a irmã. Coração na boca, corri para o mais longe que pude e chorei. Chorei sem acreditar naquilo. Apesar de nunca ter trocado um “oi”, um “bom dia”, não conseguia conceber a separação. Semanas se passaram e minha cabeça já não estava mais em Cecília. Não digo que a esqueci, mas devo ter escondido em algum lugar da minha cabeça.

...

- Olá, Tereza. (Como seu corpo cresceu. Precisa convidá-la qualquer dia para sair.)
- Bom dia, Francisco.
- Vai viajar? (Irei convidá-la assim que voltar.)
- Sim. Vou para São Paulo. Lembra de Bentinha?
- Bentinha?
- Viúva de Osvaldo. Pois bem, sua filha irá se casar. Cecília. Não sei se você chegou a conhecê-la.
- Não. (eu disse já com a voz engasgada e com a menina de doze saindo do esconderijo de minha cabeça.)
- O que houve?
- Nada. Lembrei que preciso visitar um velho amigo. (Como tudo o que senti por ela pode voltar assim? Multiplicado.)
- Eu também preciso ir. Quando voltar, podíamos combinar alguma coisa.
- Claro. Adoraria. (O que realmente adoraria era rever Cecília.)
- Bom, sendo assim, vou indo.

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Quinze anos de casamento é pouco para quem pretende viver muito tempo com que ama. Não digo que meu casamento com Tereza seja feliz. Triste também não é. Ela me entende. Ela respeita meu jeito. Ela faz qualquer coisa por mim, até aceitar minhas noites fora de casa. Ela também já deve saber que tenho uma amante há quase um ano. E mesmo assim me ama incondicionalmente. Ela sabe que não há outra saída a não ser aceitar as noites que passo com essa outra mulher.

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São Paulo. Como essa cidade é grande. E quantas pessoas há nessa cidade. Me perco nela todos os dias, assim como me perco fácil entre as pernas de Cecília. A menina de doze anos que envenenou o pai. Matou sim, depois da sexta vez que ele acariciou seus pequenos peitos, suas coxas brancas e sua vagina ainda cheirando a talquinho, por onde hoje eu me perco tantas vezes. A confissão me assustou. Os gritos e gemidos em um primeiro momento também me fizeram ficar com medo. Não estava acostumado. Tereza não é assim. Mas, com o tempo me acostumei. Com o tempo, a tudo se acostuma. Devo admitir que aquilo começou a me dar prazer. Os palavrões impronunciáveis que ela me pedia para dizer. A força com que minha mão acertava seu rosto, deixando marcas do que sentíamos. Cecília era muito mais do que uma amante. Era a loucura que muitos procuram a vida e inteira e que morrem sem a encontrar. Eu encontrei quando criança e a reencontrei em um jantar. Cecília queria dar as boas vindas aos novos moradores de São Paulo e apresentar Cassiano.

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Cecília se separou de Cassiano um mês após nosso primeiro encontro. Disse que não agüentaria mais um dia com seu quinto marido. Disse que iria continuar a busca pelo amor verdadeiro. O mesmo amor que disse ter encontrado em mim.

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Foi profunda. A primeira facada atingiu o baço. A segunda pegou na coxa. O sangue já estava em nossos corpos, quando acertei a terceira facada em seu peito. Eu chorava, pensando em Tereza. Temia, que esse fosse nosso fim.

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Tereza vem me visitar toda semana na cadeia. Ainda me ama.
Deus nos declarou: marido e mulher!