DESC O N S T R U Ç Ã O (O passado que não cicatriza)


A casa. Terrivelmente limpa.
Olho pela janela. Um avião passa. Baixo.
Na mesa, teu retrato.
Um rosto belo, delicado. Puro.
Lá fora um silêncio total.
Parece feriado.
Ninguém nas ruas, nem nos bares.
Som das madrugadas.
Do voltar para casa, já cansado.
“Voltou?”
“Fui comprar cigarros.”
Ela voltou. A fumar.
Passa bem próxima de mim.
Sinto o cheiro do mundo.
Quero abraçá-la. Não consigo.

Recordações me assustam,
já me fizeram chorar,
em um tempo em que vivi sozinho,
em um quarto branco, sem objetos.
Tempos que já passaram,
mas sempre voltam.
Como o ponteiro daquele relógio.
Avança, avança, avança. E volta
a lembrança dos gestos,
e das vozes , sempre a repetir:
“você é a pessoa mais inteligente que já conheci”.
O futuro vem. Rápido.
Um tropeço. Não. O chão.
A queda. E agora ela,
nesse quarto comigo.

Dois dias. Três noites.
Aproveito e volto a fumar.
Um. Dois. Três. Um atrás do outro.
Não fumava desde...
de que fui para a clínica.
Lá eram pílulas.
Apenas pílulas.

1 comentários:

Gi disse...

Eis que surge um poeta. O poeta que sempre se debateu no coração errante do querido Belano. Que bom que você o libertou, que parou de esconder os versos em prosas só pra não passar pelo constrangimento de dizer que...

...Faz poesia.